quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

"O léxico autorizado"

Mais um excelente texto de José Vítor Malheiros publicado ontem na edição impressa do "Público" (sem link), com o título em epígrafe, que tomo a liberdade de transcrever parcialmente:

"(...) Uma grande parte da política passa por criar e tentar impor na arena social, na imprensa, no debate político, determinadas visões do mundo - determinadas narrativas -, como bem sabem os mestres da propaganda. Mas essas narrativas são construídas por palavras e, quando determinados termos se impõem, há narrativas que se organizam quase naturalmente à sua volta.
Tomemos a "ajuda". "Ajuda" é uma coisa boa. Todos gostamos de ajudar, todos gostamos de ser ajudados. Não é fácil criar uma narrativa onde o mau da fita é alguém que "ajuda". Quem ajuda é, forçosamente, nosso amigo.
E como apareceu a expressão "ajuda financeira"? De facto, aquilo que designamos por "ajuda financeira" é, simplesmente, um empréstimo. E empréstimo é não só uma expressão mais correcta como mais neutra. Sabemos isso porque há empréstimos que nos aliviam e outros que nos entalam. É possível criar narrativas diferentes à volta da expressão "empréstimo". Posso dizer "aquele empréstimo permitiu-lhe salvar a empresa" ou "o que o levou à falência foi aquele empréstimo". Posso dizer que o "empréstimo negociado com a troika tem um juro usurário", mas já não o posso dizer se lhe chamar "ajuda". As palavras não deixam. Um "resgate" também é uma coisa boa. Salva-nos. Não é possível dizer nada de mau de quem nos resgata. (...)"
***
Curiosamente, também aqui no blogue se referiram, ontem, exemplos  de uso das palavras, para criar uma narrativa que, não correspondendo à realidade, tem a virtualidade de a esconder. Ontem foi a vez do ministro Gaspar (das Finanças) e do ministro Álvaro (da Economia). Hoje é o secretário Moedas a usar da mesma técnica. Diz ele (Moedas) que a economia portuguesa se está a "ajustar rapidamente". "Ajustar", como diria o José Vítor Malheiros, é uma coisa boa. Quem é que não gosta que as coisas se ajustem? Porém, se Moedas dissesse que "a economia portuguesa está a contrair-se mais do que o previsto", como acontece na realidade,  já seria uma coisa má. 
Isto só para dizer que os actuais governantes podem não saber como fazer crescer a economia; podem não conseguir conquistar a confiança dos mercados, mas de propaganda sabem eles. Muito, como se vê pelos exemplos.

Acabe lá com essa conversa que já chateia

Volta não volta, lá vem ele com a conversa do "desvio colossal". E logo ele que jurou que não iria desculpar-se com a "herança" recebida. Como as coisas estão a dar para o torto, graças à desgraça das suas políticas, Passos Coelho não tem feito outra coisa. 
Ora, manda a verdade que se diga que nem ele, nem a troika foram ainda capazes de demonstrar a existência de qualquer "desvio". Aliás a troika que, pelos vistos, é mais séria do que ele, nunca sequer o afirmou e muito menos o confirmou. Se desvio há, e colossal, é entre o que Passos diz e o que Coelho faz. 
De modo que, senhor Passos/Coelho, faça o obséquio de acabar com essa conversa. A mim já me chateia. Tanto que já nem o ouço!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

É chinês, ou mandarim?

Não sei se é pelo facto de o governo ter andado ultimamente envolvido em negócios com empresas chinesas, certo é, porém,  que alguns governantes, como é o caso dos ministros Álvaro e Gaspar falam uma linguagem que não dá para entender. Eu aposto que é chinês, mas não excluo que seja mandarim. Português é que não é.
No mesmo dia em que o governo anuncia, pela terceira vez em cinco meses, mais uma revisão em baixa das perspectivas para a economia portuguesa, apontando, agora, para uma queda de 3,3% do PIB e para um novo aumento desemprego, com este a atingir 14,5%, este ano, vem o ministro Álvaro dizer que "nós estamos em condições muito melhores do que estávamos quando tomámos posse porque estamos altamente e totalmente* empenhados em conseguir uma consolidação orçamental e uma diminuição da trajetória da dívida". 
Lá que ele esteja empenhado em conseguir "uma consolidação orçamental", não duvido. Que ele e o governo de que faz parte consigam alcançar tal objectivo já não creio. O resto muito menos entendo. E não é por mais nada. Aqueles números é que não dão para sustentar tamanha fé.
Por sua vez, o ministro Gaspar que, mesmo em matéria de linguagem, não gosta de deixar os créditos por mãos alheias, perante os mesmos números, garante que “não há evidência de uma dinâmica de ajustamento perverso ou de um ciclo de contracção vicioso”, afirmação que, bem vistas as coisas, nem ele entende, pois que diz ao mesmo tempo que é necessário manter uma “vigilância constante” para “evitar que essas dinâmicas perversas possam confirmar-se”.
Se ele, que fala em chinês (ou mandarim?), não entende, quanto mais eu.

(*O Álvaro não faz a coisa por menos: "altamente e totalmente". O bold, no entanto, é meu.)

Um vírus preocupado com a consolidação das contas públicas

Está encontrada a explicação para o anormal número de mortes verificado nas últimas semanas e, afinal, a causa não é, nem na gripe I (de indiferença), nem na gripe C (de crise) nem na gripe P (de pobreza), como  o Carlos alvitrava aqui. O culpado pela mortandade é, segundo o  director-geral da Saúde, Francisco George , um vírus que dá pelo nome de A(H3N2) que afecta sobretudo os grupos etários mais idosos, os mais vulneráveis
Atendendo às suas vítimas preferenciais, parece-me que não será ofensivo, para o vírus, dizer que também ele   anda preocupado com a consolidação das contas públicas. Ou será?

Mau sinal !

O governo, pela voz do secretário de Estado da Administração Pública, Hélder Rosalino, considerou hoje que a avaliação da troika ao plano de reformas económicas “tem corrido bem”.
Mau sinal, digo eu, porque as notícias que vão surgindo não são nada boas. Muito pelo contrário. Mesmo numa área tão sensível como é a da saúde, área em que temos dois casos recentes que dão que pensar: o número  de mortes, nas últimas semanas, inesperado e ainda por explicar; e o anúncio pela Roche Farmacêutica de que vai interromper as vendas a crédito a 23 hospitais públicos com dívidas há mais de 500 dias.
Se no primeiro caso, muitas explicações são possíveis, umas mais plausíveis do que outras, podendo entre aquelas figurar o aumento da pobreza dos mais idosos que foram, de longe, os mais afectados, já o segundo caso evidencia que, para este governo, a saúde não é uma prioridade, sabendo-se que Portugal já recebeu mais de metade do empréstimo concedido pelo Fundo Monetário Internacional e da União Europeia. Ainda que mal pergunte: aplicado onde?
Digo mau sinal, porque, estando as coisas estão neste pé, com as condições de vida dos portugueses a piorar de dia para dia, tal só pode ter o significado de que as medidas impostas pela "troika" e a serem, a  crer na   tal avaliação,  bem executadas,  estão a ter um efeito contraproducente. O remédio em vez de curar, pelos vistos, mata. Não só em sentido figurado, mas até, ao que parece, no verdadeiro sentido da palavra.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Se

Monsieur de la Palice não diria melhor.
Note-se, em todo o caso, que  a tirada mostra que a confiança de Passos Coelho já não é lá muita. Para um fanático da austeridade já é um progresso, ainda que sem significado, pois não afasta a hipótese, cada vez mais provável, de ter de recorrer, graças à sua política de empobrecimento, a mais austeridade.
Hipótese que, aliás, é antecipada por economistas de renome, a quem é difícil não dar razão, olhando para o "andar da carruagem". O que quer dizer que, em boa verdade, o  "se" de Passos Coelho não vale um chavo. 
(reeditada)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Tem gente que é cega

Com a economia a afundar (3,3% segundo as últimas previsões da União Europeia), o desemprego a crescer muito além das previsões, tendo já atingido 14% da população activa, o consumo e o investimento a cair a pique, com as receitas do Estado a diminuir, não obstante o forte aumento dos impostos em sede de IVA e de IRS, nomeadamente, e com as exportações a não crescer já como soía (no tempo do Eng. Sócrates), Passos Coelho está "moderadamente optimista quanto ao cenário em que estamos a viver".
É bem verdade que não há pior cego do que aquele que não quer ver.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Trabalhos de campo (IX)

Melro ou Melro-preto (Turdus merula L.) ( fêmea)

Melro ou Melro-preto (Turdus merula L.) (macho)
(Clicando nas imagens, amplia)

"Rola-bosta"

A propósito da notícia do CM sobre os cartões milionários na Defesa, e do subsequente Esclarecimento do ex-ministro Augusto Santos Silva, já ontem publicado neste blogue, Ferreira Fernandes, escreve hoje, no DN  mais um texto, a vários títulos, notável e que bem merece divulgação. Este:

"Um político com crédito

Há um Santos Silva banqueiro (Artur) e um Santos Silva ex-ministro (Augusto), e foi naturalmente a este que se passou cartão porque o assunto era achincalhar: "Cartões milionários na Defesa", titulou o Correio da Manhã. O Santos Silva não milionário, afinal, era-o... O ministro da Defesa do último Governo tinha dez mil euros de plafond!, gritou o jornal, tão alto quanto o teto do cartão bancário. O CM tem a mais apurada pituitária dos jornais, se fosse escaravelho haveria de se chamar rola-bosta, quem gosta fica bem servido. E assim lá houve mais um episódio de indignação esganiçada. Tudo normal, não fosse o tal Santos Silva não ser dos políticos que quando há suspeitas sobre as suas contas se negam a divulgá-las. A contracorrente do que é norma, o Silva do teto alto, em vez de deixar a suspeita assentar e esquecer, espevitou-a. É certo que começou por dizer, o que podia ser mero truque para protelar a explicação, que do cartão de serviço só gastara em serviço. Oh filho, os fãs do rola-bosta querem é saber se bebeste Petrus à custa do povo... Mas não, o Silva do cartão não estava a protelar coisa nenhuma, tirou a coisa a limpo e exigiu que o Ministério da Defesa tornasse público o que gastara. E ontem soube-se: nos 20 meses em que foi ministro, do seu cartão super-hiper de dez mil euros, Augusto Santos Silva gastou uma média de 147,72 euros mensais. Deixa-me fazer contas: dez mil, manchete; 147 euros, deve dar duas linhas."

(O CM fez hoje questão, como faz diariamente, de não deixar os seus créditos de "rola-bosta" por mãos alheias. É verdade que a "bosta" de hoje já está mais do que ressequida, tantas são as voltas que o CM já deu nela e com ela, mas não deixa de ser "bosta" e de continuar a exalar o fedor próprio da espelunca.)
.
(À cautela, não vá dar-se o caso de o fedor também se difundir por via electrónica, vou já tomar banho)

... e também uma garotada.

- "O meu afastamento [da presidência do Centro Cultural de Belém] foi uma inconveniência. E uma deselegância. Ponto" diz Mega Ferreira, elegante como é. E também uma "garotada", acrescento eu que não presumo de o ser.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A verdadeira razão: "ego" inflado


Carrilho não aceitou o convite de Seguro

Leio aqui, nesta notícia, que Manuel Maria Carrilho não aceitou o convite de António José Seguro para integrar a equipa do Laboratório de Ideias do PS (LIP) alegando que tem em mãos "muito trabalho académico" e os livros.
Não ponho em dúvida a veracidade da notícia, mas não acredito na razão invocada. De facto, se Carrilho tem tempo para tanta coisa, pois vejo-o a perorar em vários sítios, a razão para não dar uma "ajudinha" ao seu (?) partido só pode ser esta outra: o "ego" dele é de tal modo inflado que onde está ele não cabe mais ninguém.
Eu, pecador me confesso: a razão invocada pode ser (é) falsa, mas a decisão agrada-me.
(A imagem é ilustração da notícia "linkada") 
(Título reeditado)

Vicks VaporUb



Quem olhe para as medidas com que este governo se propõe combater o desemprego não pode deixar de concluir que para estes governantes a chaga social que ele representa não passa de uma constipação que se pode curar recorrendo a mezinhas. Ora, qualquer observador sabe que o mal não se cura com mezinhas pois a "febre" não cessa de aumentar. O dinheiro despendido com tais mezinhas que, pelo que se vê, não é pouco, é dinheiro desbaratado e mal gasto.

E ainda dizem que não há dinheiro para nada! Pelos vistos, há. Para propaganda, há sempre.


Post scriptum
Não é preciso ser especialista para saber que estas medidas não passam de propaganda (pura, dura e cara) pois toda a gente sabe, até porque se ouve todos os dias em tudo o que é comunicação social, que sem crescimento da economia nas ordem dos 2 ou 3 por cento, ao ano, não há criação de emprego. Os artolas também sabem que com a economia a decrescer 3,3% (ou, provavelmente, muito mais) em grande parte devido às medidas de austeridade tomadas por este governo, o desemprego só pode aumentar.  Eles, no entanto, também sabem que vale a pena investir em propaganda, porque há muita gente que facilmente se deixa enganar. Nesta matéria, eles são peritos. Como se viu e continua a ver.

Quantos banhos ?


Perante este esclarecimento do ex-ministro da Defesa, Augusto Santos Silva, por ele publicado no Facebook e a seguir reproduzido na íntegra ...

‘Já disponho da informação relevante relativamente ao assunto de que o "Correio da Manhã" fez manchete na passada terça-feira, dia 21 de fevereiro de 2012, sob o título "Cartões milionários na Defesa" e com a minha fotografia.

    Tenho dois factos para divulgar e três comentários a fazer.

    Os factos:

    1. O total de pagamentos efetuados com o cartão de crédito que utilizei como ministro da Defesa foi de 2.954,39 euros (dois mil, novecentos e cinquenta e quatro euros, e trinta e nove cêntimos). Considerando que estive 20 meses nesse lugar, isto dá uma média mensal de 147,72 euros (cento e quarenta e sete euros, e setenta e dois cêntimos).

    2. Os esclarecimentos que entretanto obtive tornaram firme no meu espírito a convicção de que na origem da "notícia" do CM está apenas a agenda político-mediática deste jornal. Na sequência do recente trânsito em julgado de um processo movido pela Associação Sindical dos Juízes ao anterior governo, os ministérios encontram-se obrigados a fornecer este tipo de informações.

    Agora os comentários:

    3. Agradeço ao Ministério da Defesa, na pessoa dos seus mais altos responsáveis, a celeridade com que me facultou a informação que solicitei, compreendendo a sua relevância para a defesa da minha honra pessoal e, na minha modesta opinião, também para a defesa da dignidade institucional das funções que tive o privilégio de exercer.

    4. Acredito que os dados que agora divulgo serão suficientes para esclarecer a dúvida que vi ainda persistir, naturalmente, na mente de pessoas que de boa fé comentaram este caso: perceberão melhor que, tendo eu consciência, não do valor exato, mas da ordem de grandeza dos pagamentos que fazia com o cartão de crédito, não me preocupasse minimamente em averiguar qual o valor do seu "plafond".

    5. É possível debater estas questões fora do círculo da demagogia populista. O que interessa é o valor global das despesas dos gabinetes dos membros do Governo, qualquer que seja o meio de pagamento usado (numerário, cartão, cheque, transferência, etc.). Este valor é documentado, despesa a despesa, por quem a faz. É certificado, despesa a despesa, pela secretaria-geral do ministério respetivo. É escrutinado politicamente pelo Parlamento e financeiramente pelo Tribunal de Contas. O seu valor anual consta das leis do Orçamento e dos relatórios de execução orçamental. É conhecido publicamente e regularmente objeto de notícias da imprensa.’

...não posso deixar de plantar aqui uma pergunta dirigida aos membros da direcção e da redacção do "Correio da Manha": quantos banhos tomam antes de regressarem às vossas casas até conseguirem libertar-se do fedor que se respira na espelunca?

(o bold e o link deixados supra são da minha responsabilidade.)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Que saudades!

Desonra lhes seja feita!

É moralmente correcto que o objectivo de um país seja o de gerar excedentes? Um excedente é economicamente mais benéfico? Uma união monetária pode viver com permanentes desequilíbrios estruturais?pergunta  Wolfgang Münchau em crónica, comentada aqui, de critica à política alemã, pergunta a que o próprio responde: moralmente os excedentes não existem sozinhos”. “Se postularmos que ‘mais cinco’ é moralmente aceitável, então a conclusão lógica é que ‘menos cinco’ também tem de ser aceitável. Nem é preciso um imperativo categórico para aceitar isto. Lógica elementar e alguns conceitos económicos básicos são suficientes”. “Neste contexto, o desprezo moral pelo défice de alguns países é completamente inadequado.

Elementar, e não obstante, não é só a senhora Merkel quem manda a lógica às urtigas, defendendo que o défice de alguns países europeus, Portugal incluído, deve ser castigado, nada se preocupando com os correspondentes excedentes alemães que, em parte, são a causa. De facto, o governo que nos (des)governa, obcecado com o défice, até é mais merkelista do que Merkel, encarniçado que está em aumentar o castigo imposto pela "troika". Empobrecer é a palavra de ordem, que outra, pelos vistos, não conhecem. E estão a conseguir o objectivo, desonra lhes seja feita!

Zeca Afonso, 25 anos depois

(Venham mais cinco)

Vozes que não chegam ao céu

Dizem os actuais (des)governantes que não só cumprem tudo o que a "troika" manda como até vão mais além, mas o certo é que  não resolvem os problemas do país, antes os agravam.
Como diz  Paul  Krugman, na crónica parcialmente reproduzida no "post" anterior, o país está a ser sacrificado em nome de teorias que, está a ver-se, só contribuem para degradar a situação económica e social do país.
Quem o diz é a União Europeia que prevê, para este ano, uma quebra na economia portuguesa da ordem dos 3,3%, superior às últimas previsões do governo (-3%) e do Banco de Portugal (-3,1%) e que, a nível europeu, apenas é suplantada pela  pela Grécia (-4,4%).
Ah!, mas contra todas as evidências, o ministro Gaspar mantém a crença de que a austeridade vai permitir a Portugal recuperar "gradualmente"a confiança e a credibilidade.
É uma pena, mas é um facto que nem a voz de Gaspar, nem a dos demais membros do governo, incluindo o Moedas, chegam aos mercados. E o pior é que, tal como a da ministra Assunção Cristas, a clamar por chuva, também não chegam ao céu.
Não é que sejam "vozes de burro", que estas já toda a gente sabe que não chegam lá, mas são vozes de obstinados e cegos o que vem a dar no mesmo.

Sacrifícios sem proveito

"Mesmo os países bons alunos em matéria de austeridade, como Portugal e Irlanda, que fizeram tudo os que lhes foi exigido, continuam a enfrentar custos de financiamento exorbitantes. E porquê? Porque os cortes na despesa deprimiram profundamente as suas economias, enfraquecendo as bases de tributação a um tal ponto que o rácio da dívida em relação ao produto [PIB], o indicador standard para medir o progresso orçamental, está a piorar em vez de melhorar."
Paul Krugman; Pain Widhout Gain (Extracto. O original, em inglês, na íntegra, aqui)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Ser lambe-botas não compensa

"O governo alemão rejeitou hoje a hipótese de reduzir os juros dos resgates a Portugal e à Irlanda."
(Notícia integral, aqui)

Passos, um seu criado...


Como não se podem exterminar, esfolem-nos!

Não há a mínima dúvida de que este (des)governo tem tratado os reformados e pensionistas com particular "carinho":
Tal como aos funcionários públicos fica-lhes com os subsídios de férias e de Natal;
Suportam, como os demais cidadãos,  os aumentos de preços  e pagam, em geral,  os mesmos impostos, o que é justo. Digo em geral, porque há uns tantos que são forçados a suportar uma sobretaxa que pode ir até 50% sobre o que exceda determinados  montantes, sobretaxa que, no entanto, não incide sobre os rendimentos de pessoas, como Catroga, que auferem muitas centenas de milhares ou mesmo milhões de euros por ano, o que já não é nada justo.
E, agora, como última manifestação de "carinho", até nas tabelas de retenção do IRS são discriminados. Enquanto para cálculo da retenção em relação aos funcionários públicos apenas se consideram, e muito justamente, as 12 mensalidades que vão receber, a tabela de retenção relativamente às pensões não só tem conta as 12 mensalidades que os reformados e pensionistas irão receber (irão mesmo?) mas também as duas referentes aos subsídios de que foram esbulhados. 
Isto é o cúmulo da roubalheira. Onde é que já se viu pagar impostos sobre rendimentos que não se recebem? 
Perante isto, não sei mesmo a que extremos de "carinho" é que a "troika" Coelho, Gaspar & Portas é capaz  de chegar. É verdade que exterminar todos os reformados está fora de questão até porque  existe o Tribunal Penal Internacional (TPI) e Portugal aceitou a sua jurisdição.  A   "troika" Coelho, Gaspar & Portas não poderá, por isso, ir muito além do  "Esfolem-nos", se bem que aos titulares de pensões mais baixas já nem reste a pele.

Adenda:
Só agora me dou conta que na firma da "troika" figura o nome dum tal Portas que, se não estou em erro, aqui há uns meses se intitulava, além de mais que agora não vem ao caso, de patrono dos contribuintes, reformados e  pensionistas. Por onde andará agora esse tal Portas?

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

"Este Tempo" de censura


"No dia 23 de Janeiro, o então director de Informação João Barreiros disse a Ricardo Alexandre que o programa Este Tempo terminava porque o "director-geral Luís Marinho não queria assinar a renovação dos contratos" dos colunistas do programa. Quando Ricardo Alexandre lhe perguntou a razão, Barreiros respondeu que era por causa de "Pedro Rosa Mendes e daquela crónica que fizera sobre Angola".
Ricardo Alexandre afirmou que "pela forma como reagiu durante a conversa", presume que também o próprio João Barreiros só terá sabido da decisão de Luís Marinho nesse dia 23. "Disse-me que em muitos anos de profissão era a primeira vez que lhe pediam para tirar um programa do ar."'


Perante o depoimento de Ricardo Alexandre prestado hoje na Comissão de Ética, relatado aqui, donde extraí a transcrição supra, não restam dúvidas de que  "Este tempo" foi objecto de censura.
Não sei, face ao depoimento, se Luís Marinho actuou por iniciativa própria, ou se se limitou a fazer a vontade ao ministro Miguel Relvas. Seja como for, só tem que seguir um caminho: o da rua. 
E, das duas, uma: ou se demite, como lhe cumpriria, ou então a administração que o demita. Se esta o não fizer, ficará claro que na decisão andou a mão de Relvas.
Luís Marinho, pelos vistos, não é homem d'Este Tempo. O tempo dele (e o da censura) já passou. E o de Relvas?

Não se esqueça: adoeça!

Contrariando os avisos já aqui deixados por mais de uma vez (Pela sua saúde não adoeça!) venho hoje recomendar precisamente o contrário. De facto, é de toda conveniência que, em cada  três anos, adoeçamos, pelo menos, uma vez que seja. Recomendação que se deixa a quem não queira ser riscado da lista dos vivos. 
Há, de facto, gente muito estúpida! Cada dia que passa mais me convenço que este governo não passa duma Comissão Liquidatária.

De castigo!

Os serviços públicos estão abertos devido à decisão do governo de Passos Coelho de não dar tolerância de ponto na terça-feira de Carnaval, mas, no geral, estão às moscas, por falta de utentes. Sendo assim, os funcionários estão lá, mas, na melhor das hipóteses, a trabalhar a meio gás. Usando uma expressão doutros tempos bem se pode dizer que "não estão a ganhar para o petróleo". 
Sabendo o governo que "uma parte significativa das empresas públicas e privadas vai parar no dia de Carnaval devido aos contratos colectivos de trabalho e aos acordos de empresa que consideram a Terça-feira Gorda um dia feriado" mandaria o simples bom senso que se mantivesse a tradição, pelo menos durante este ano, até que fosse revista a situação.
Mas, pelos vistos, bom senso é artigo que este governo não gasta, pelo que não custa concluir que, além do mais, esta gente é estúpida.
A alternativa (do tipo "pior a emenda que o soneto") é considerar que Passos Coelho achou por bem mandar trabalhar os seus "alunos", por castigo. Como anda armado em "moralista", lá capaz disso é ele.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

O rapaz é teso!

Se em política, frequentemente, o que parece é, então, atendendo à sequência cronológica, tudo indica que  umas vaias foram suficientes para Passos Coelho mudar de disco.
Depois de apupado em Gouveia, o primeiro-ministro do "custe o que custar", que sempre garantiu que Portugal “não precisa de mais tempo, nem de mais dinheiro”, ao subir até à Guarda depois das vaias, perdeu as suas certezas e mudou o disco para  Nós não sabemos se precisaremos disso ou não".
Amanhã, não sei como será, mas lá que o rapaz é teso, isso é! 

Sócrates - uma opinião...

...que partilho.


"Para bem ou para mal, o ciclo que findou tem um ícone: Sócrates. Deificado e diabolizado, sempre em situação adversa, ele foi um político invulgar. Começou por reduzir o défice, reformou a Segurança Social, a Escola e a Saúde. Modernizou costumes atávicos. Apostou na ciência e fez do país o que mais cresceu neste domínio. Apostou nas energias renováveis, em produtos exportáveis de alta tecnologia, e os resultados, que são lentos, já se começam a ver. Mas afrontou as corporações e começou a perder.

Aceitou ir quinzenalmente à Assembleia da República e, aí, defrontava-se com quatro oposições de direita e de esquerda. Foi combativo, mas gerou crispação. Atacaram-no por todos os lados. Escrutinaram a vida dele, dos pais, dos tios, dos primos e dos amigos. Acusaram-no de tudo. Manipularam a sua imagem para criar um preconceito. Quando se defendia diziam que mentia. Quando tentava ser optimista no meio do pessimismo criado contra si, é porque mentia. A tudo resistiu.

Transformaram-no em bode expiatório da crise financeira internacional. Mas ele tinha uma solução para o País: ganhar tempo até que a Europa ganhasse juízo com o balão de ensaio grego. Tiraram-lhe o tapete e tudo seguiu outro rumo. Sabendo que já não era o seu tempo, lutou até ao fim. Quando, dignamente, aceitava a derrota pessoal, ainda uma jornalista de mau gosto lhe dava facadas. Um dia se reconhecerá a estatura deste político. A mediocridade instalada nos media não o enxerga por agora."
J.L. Pio Abreu; Sócrates (Bold meu)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Parvus


Que Marques Mendes, um militante do PSD e seu ex-presidente, ainda não presenteado com nenhuma sinecura, se desfaça em elogios ao líder do seu partido, é compreensível e tudo bem. Já proclamar que Passos Coelho "vai colocar o interesse do país à frente do interesse do partido" e que  "não está a governar para ganhar eleições", é querer fazer de nós parvos, não no sentido etimológico do termo, pois, nesse sentido, o parvo é ele.
Talvez ele não se lembre, mas, se é o caso, convém recordar-lhe que Passos Coelho, num momento particularmente difícil da vida do país, bastou ser posto sob a ameaça de ser apeado do cargo de líder do partido, para pôr o seu próprio interesse à frente dos superiores interesses do país, e para, sem hesitar, derrubar o Governo e lançar-se numa aventura que, pelo caminho já andado, vai acabar mal. Muito mal mesmo.

Se, ao menos, soubesse usá-la...



António José Seguro acusa o primeiro-ministro Coelho de só encontrar respostas para os problemas do país, "na ponta de uma tesoura". Diz Seguro e diz bem. O maior problema, porém, é que Coelho nem a tesoura sabe usar. Ao cortar dá sempre cabo do "pano", porque, além de desajeitado, não é capaz de medir o tamanho da "fazenda".
Os números da chaga do desemprego recorde e da quebra continuada da actividade económica, sem fim à vista, estão aí para o comprovar. Até os cortes na despesa lhe saem ao contrário. Por exemplo, soube-se hoje, que apesar dos cortes impostos, os prejuízos das empresas públicas aumentaram 38,5%, atingindo, em números redondos, 1,5 mil milhões de euros.
Com Cavaco escondido atrás do reposteiro, no Palácio de Belém e o governo do país entregue a uns quantos autistas, incapazes de inverter a política do empobrecimento "custe o que custar";  e a outros tantos "Álvaros", incapazes de um rasgo, Portugal segue a "Passos" largos para uma tragédia à grega.
Quem for vivo, verá.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Azar o dele



O Presidente alemão, Christian Wulff,  demitiu-se  devido ao alegado envolvimento num  caso de corrupção: terá contraído um empréstimo através da mulher de um empresário seu amigo, a taxas mais baixas do que as praticadas pela banca.
Reconheça-se a dignidade da atitude, tomada, tendo em consideração que o seu país "precisa de um presidente que tenha a confiança de uma larga maioria e não só de uma maioria".
E, já agora, reconheça-se também o azar dele: não nasceu duas vezes e não se chama Cavaco.
(notícia e imagem daqui)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Quem disse que Cavaco é medroso?

(imagem daqui)

Falso alarme

Constou, por aí, que  Cavaco Silva havia desaparecido depois de ter cancelado uma visita à Escola Artística António Arroio, em Lisboa, onde era aguardado por uma dezenas de alunos frente ao portão da escola, devido a um alegado "impedimento".
Já depois de dado o alarme, Cavaco Silva foi, no entanto, visto a cumprimentar o primeiro-ministro da Guiné-Bissau.
Tratou-se, pois, dum falso alarme. Cavaco Silva, como se vê, pela fotografia continua no pleno exercício das suas funções. E sem qualquer impedimento. 
Graças a zeus!


"Custe o que custar"

Uma tragédia sem fim à vista que é fruto da opção deste governo de "Álvaros" traduzida na expressão "custe o que custar" tão cara ao primeiro-ministro, também ele "Álvaro", a justo título. 
Os frutos, ainda que fossem expectáveis, estão, infelizmente, a chegar bem mais depressa do que o esperado. E, pelo que se tem visto, não será por iniciativa dos "Álvaros" que iremos assistir a uma mudança de rumo. Contemos, por isso, com o pior.
Para ser franco, já não sei mesmo onde que é isto vai parar, tão rápidos são os "Álvaros" a bater todos os recordes.

Este senhor não é gago...


Karolos Papoulias, presidente grego, abdicou de salário de 300 mil euros anuais.


... nem se chama Cavaco Silva.
"Não aceito insultos ao meu país feitos pelo senhor Schäuble. Não aceito isso como grego. Quem é o senhor Schäuble para ridicularizar a Grécia? Quem são os holandeses? Quem são os finlandeses? Teremos sempre orgulho em defender não apenas a nossa liberdade, não apenas a liberdade do nosso país, mas a liberdade de toda a Europa
(Karolos Papoulias, presidente da Grécia)

(imagem e citação daqui)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Depois, admirem-se!

Num notável artigo intitulado 'Ainda o "bei" de Tunes' publicado aquiAntónio  Monteiro Fernandes Professor no ISCTE e Especialista em Direito do Trabalho, analisa a acção do actual governo, caracterizando-a desta forma: 


"(...) Desenhada a traço grosso nos documentos fundamentais que são o memorando da "troika" e o Programa do Governo, ela desenvolve-se em dois planos sobrepostos. 
Num plano superior e mais visível, está a política de "cortes" no chamado "sector público". Toda a gente "percebe" facilmente que os défices das contas do Estado têm que ser reduzidos ou eliminados e que isso implica, entre outras coisas, reduções de despesa. As violências que assim se legitimam – reduções de salários já congelados há anos, reduções de pensões de aposentação e reforma, "corte" total ou parcial dos chamados "subsídios" de férias e de Natal – são, certamente, discutíveis na sua licitude, mas sabe-se para que servem.
Num outro plano, desenvolvem-se as medidas de "austeridade laboral", umas definidas no memorando da "troika", outras concebidas pelo governo – todas no mesmo sentido: fazer as pessoas trabalhar mais tempo por menos dinheiro, com menos segurança e maior sujeição à vontade de quem as emprega. Elas não são compreensíveis no quadro de uma resposta eficaz à crise económica e financeira. São tributárias da ideia (reconhecidamente errada) de que o crescimento da economia se fará em Portugal pelo lado do trabalho barato e dócil. As indústrias que sobreviveram e que prosperam em Portugal mostram como é. Mas quem promove essas medidas actua em nome de uma fé inabalável que produz a cegueira e a surdez. São os sacerdotes da economia mística. E o seu credo impõe-lhes a convicção de que as concepções e as regras condicionantes do livre uso do factor trabalho, construídas em Portugal ao longo das três últimas décadas, têm que ser metodicamente desmanteladas – e quanto mais cedo melhor.(...)"


 E conclui:


(...)Por outras palavras: a chamada "austeridade laboral" não é explicável pelas necessidades do combate à crise e do relançamento económico. 
Ela tem, decerto, um lado pragmático: a "troika" (em nome do mesmo credo) simpatiza com actos de maceração, de flagelação do povo assalariado, toma-os como sinais de bom comportamento dos governos – e é preciso agradar à "troika". Por outras palavras: é preciso mostrar aos credores que somos capazes de fazer sofrer para lhes ganhar os favores. 
De resto, mesmo sem "troika", e a título "preventivo", o mesmo se passa na Espanha (com 50 reformas laborais em trinta anos), na Itália e na Grécia, sempre com resultados económicos nulos e consequências sociais nefastas. Os direitos laborais são um pouco como o "bei" de Tunis de que falava Eça de Queiroz: quando não se sabe o que fazer, dá-se-lhes uma coça

(...) Mas não é tudo. A pretexto da crise – uma magnífica "janela de oportunidade" -, o que está em marcha é mais complexo e articulado, uma verdadeira "reforma estrutural": um processo de retorno ao "statu quo" dos anos sessenta do século passado. As matérias sobre que têm incidido as medidas em causa são disso sintomas: tempos de trabalho, tempos de descanso, retribuições, despedimentos, contratação colectiva – os temas-chave em torno dos quais, em cada momento histórico, avança ou recua a fronteira entre a civilização do trabalho e a lei da selva."
(Bold meu)


(Concordando, digo eu que, de facto, o que o governo pretende é a instauração da lei da selva, ou seja, a lei do mais forte. Há, porém, limites para tudo, como se está a ver na Grécia. Em Portugal, apesar dos alegados "brandos costumes" não será diferente. O "custe o que custar" pode, espero, vir a custar-lhes caro. Depois, admirem-se!)

A confissão


"Passos Coelho perguntou, (...) referindo-se a José Sócrates: “Como é possível manter um Governo em que o primeiro-ministro mente?” Teimo na redundância de retomar factos sobejamente conhecidos, que justificam devolver a pergunta a quem a formulou e é, agora, primeiro-ministro. Porque a memória dos homens é curta e a síntese é necessária para compreender o que virá depois.
Passos Coelho enganou os portugueses quando disse que não subiria os impostos, que não reduziria as deduções fiscais em sede de IRS, que achava criminosa a política de privatizações só para arranjar dinheiro, que não contariam com ele para atacar a classe média em nome de problemas externos, que era uma “grande lata”, por parte do PS, acusá-lo de querer liberalizar os despedimentos, que não reduziria a comparticipação do Estado nos medicamentos, que não subiria o IVA e que falar de cortar o subsídio de Natal era um disparate.
Passos Coelho enganou os portugueses quando, imagine-se, acusou o PS de atacar os alicerces do Estado social, censurou a transferência do fundo de pensões da PT para o Estado, acusou o Governo anterior de iniquidade porque penalizava os funcionários públicos e os tratava “à bruta”, responsabilizou as políticas socialistas pelo aumento do desemprego e das falências, recusou pôr os reformados a pagar o défice público ou garantiu que o país não necessitava de mais austeridade. Tudo retirado de declarações públicas de Passos Coelho, sustentadas documentalmente. Tudo exactamente ao contrário do que executou, logo que conquistou o poder.

Quem defende Passos Coelho argumenta, de modo estafado, que os pressupostos mudaram e que ele foi surpreendido pelo que encontrou quando tomou posse. A justificação é inaceitável. Porque só é sério prometer-se quando se está seguro de poder cumprir e porque existem declarações públicas de Passos Coelho afirmando que conhecia bem a situação do país. Todavia, esta questão foi definitivamente ultrapassada pelos acontecimentos recentes. Com efeito, o percurso começa agora a ser esclarecido. O qualificativo “piegas”, com que Passos Coelho injuriou o povo que lidera, não é fruto de um discurso infeliz. É, antes, uma peça de um puzzle de conduta política, cuja chave está numa frase inteira. Passos Coelho pronunciou-a quando, referindo-se ao programa da troika, afirmou: “… não fazemos a concretização daquele programa obrigados, como quem carrega uma cruz às costas. Nós cumprimos aquele programa porque acreditamos que, no essencial, o que ele prescreve é necessário fazer em Portugal …Com esta frase, Passos Coelho tornou claro um radicalismo ideológico que amedronta. Com esta frase, Passos Coelho inviabilizou o argumento da mudança de pressupostos e confessou, implicitamente, a sua manha pré-eleitoral. O seu “custe o que custar” é, tão-só, uma variável discursiva da máxima segundo a qual os fins justificam os meios. O fim de Passos, confessado agora, sempre foi o que acha ser “… necessário fazer em Portugal …” Não como inevitabilidade imposta pelos credores, a contragosto de um primeiro-ministro que sofresse com o sofrimento do seu povo. Mas como convicção radical de uma ideologia que, para se impor no seu fim, aceitou o meio de mentir com despudor. Ficámos agora a saber que Passos Coelho mentiu conscientemente. Ele o disse. (...)"

(Santana Castilho; A confissão de Pedro Passos Coelho; in edição impressa do "Público" de hoje)(O bold é meu)
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(Confesso que o articulista (Santana Castilho) não é personagem do meu agrado. As "verdades", porém, não deixam de o ser só pelo facto de saírem de "boca" que não nos agrada.)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Com os óculos do "Correio da Manha"

Quem ler, no "Correio da Manha", esta parangona - IRS dá bónus à Função Pública -  que serve de título à notícia sobre as novas tabelas de retenção do IRS, há-de julgar que o Gaspar está a usar dalguma espécie de "generosidade" em benefício dos funcionários públicos (e dos pensionistas, acrescento eu) pelo facto de não incluir no cálculo das retenções os subsídios de férias e de Natal que, efectivamente, não vão receber.
Grande favor! 
Melhor fora, digo eu, que para além de serem esbulhados dos subsídios, os funcionários públicos e os pensionistas ainda tivessem que pagar pelo que não recebem. Pelos vistos, para o "Correio da Manha", isso seria normal.
Já o facto de as tabelas de retenção representarem realmente um agravamento, quer para o sector privado, quer para o sector público e pensionistas não merece mais que um subtítulo, só visível à lupa - Impostos: Sector privado penalizado com subidas de 2% nos escalões - e ainda assim incorrecto.
A forma como o "Correio da Manha" trata a questão mostra bem, qualquer que seja o ângulo de análise, que o "jornal do crime" é um caso jornalismo lambe-botas difícil de bater. Com os óculos da direcção do "Correio da Manha", até o rapace Gaspar passa por "generoso".
(reeditada)

Já sou um homenzinho!

Mais uma excelente crónica de José Vítor Malheiros (Lá vamos, que o sonho é lindo!) publicada na edição impressa do "Público" de hoje dedicada à participação de Passos Coelho na cerimónia do 40º aniversário de uma empresa privada do sector educativo, à qual, pelos vistos, esteve ligado profissionalmente, participação com direito a discurso proferido por ele e transmitido directamente  pela televisão pública, durante 25 minutos. 
Essa participação é justamente criticada pelo cronista: "O que me parece menos aceitável é que o primeiro-ministro tenha decidido transformar este seu sentimento pessoal [de admiração pelo fundador da empresa] numa descabida homenagem de Estado com direito a propaganda televisiva.
Deve ser este o entendimento de serviço público dos actuais governantes, digo eu.

Mais adiante: "O facto de ser PM deveria impedi-lo de misturar relações pessoais e profissionais com a sua posição institucional. E a existência de uma relação profissional prévia da sua pessoa com aquela empresa deveria aconselhar-lhe alguma contenção na promoção que fez da sua actividade e no aval que lhe conferiu com este discurso"
Deveria, sem dúvida, acrescento eu, se PPC não confundisse o Estado com ele próprio, numa reedição anacrónica do L'état c'est moi.

Sobre a substância do discurso, escreve José Vítor Malheiros:

"(...) Para o PM, o país é como uma escola e a escola é um modelo do que o país devia ser. Uma escola exigente, à antiga, uma escola que não existe para educar mas para ensinar, com um mestre-escola à frente, uma cartilha debaixo do braço e os alunos de bibe atrás. Da janela do alto, o director espreita. O mestre-escola exorta os alunos: "Estão a olhar para nós, dêem o vosso melhor". Na alegoria de PPC os cidadãos são os alunos e os bravos dirigentes do PSD são os seus professores. Os alunos (nós) estamos habituados a preguiçar e a ser tratados com benevolência ("os alunos, coitadinhos, sofrem tanto para aprender") mas o Governo, com firmeza e exigência, com justiça mas com a intransigência de um pai disciplinador, vai habituar-nos a trabalhar e vai ajudar-nos a cumprir o nosso destino, sem tergiversações. Há outros personagens neste sonho freudiano: há uns que querem ficar agarrados ao passado, que se andam sempre a lamentar, que não fazem mas fazem de conta que fazem; outros que nos querem atirar ao chão e há, finalmente, uma figura paterna, na sombra, a quem temos de mostrar que somos responsáveis, que somos trabalhadores, empreendedores. "Se queremos que olhem para nós com respeito, temos de olhar para nós próprios com respeito". Há por todo o lado olhares severos que nos julgam, que julgam Pedro Passos Coelho. Há em todo o discurso de Pedro Passos Coelho um adolescente nas suas primeiras calças compridas, apostado em mostrar que já é crescido, que se vai portar bem, que vai tomar conta dos irmãos, que vai suportar os rigores da responsabilidade, que não vai ser piegas, que não vai ceder, que vai seguir à risca o seu modelo, que vai ser um pai severo perseverante.

(...) se Passos Coelho aponta um único caminho, sem estados de alma, sem grande consideração pelas queixas e contestações, piegas todas, não me parece que o faça por querer esmagar as alternativas. Penso que sinceramente não as vê. Todo o seu ser se concentra em mostrar que merece aquelas calças compridas."
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É isso: estamos entregues a um "adolescente" que quer mostrar que já é um homenzinho. Que é, de facto. O pior é que já não vai a tempo de ser outra coisa.